sábado, 4 de fevereiro de 2017

A ‘capulana’ que um dia vesti(rei): ensaio sobre raízes

✫Adoro ver as mulheres usando as suas capulanas*, de padrões variados e cores vivas. Elas (as capulanas) falam, numa linguagem simbólica e silenciosa, a história de um povo, além das inúmeras histórias que têm para contar. Nelas reconheço as minhas raízes africanas, que carrego no corpo e na alma com orgulho. A partir delas explico esta minha ligação com África, numa espécie de enamoramento, que me compele a fazer regressos infinitos. Regressos que costuro nas viagens que fiz, na literatura que leio, na música que oiço, ou nos objetos de decoração que alindam a minha casa. Regressos presentes nas subtilezas das cores (do pôr-do-sol) que me definem, no fascínio pelo cheiro da terra seca quando caem as primeiras chuvas, ou pelo consolo do pé descalço que sente o chão. Sou do calor, do mar e do sol. Regressos simbólicos, pela ‘capulana’ da minha mãe e da minha avó que dão vida às histórias de infância e recriam um passado que não se querendo presente vai recortando o futuro. Regressos pela dança, sempre, como uma espécie de poema que habita a alma e que nos (re)conecta à nossa essência.
Perceber as nossas raízes é mergulhar em nós e conhecer esses eus de que somos feitos. É remendar e recolorir a ‘capulana’ que um dia vesti(rei), cheia de histórias, (im)permanências e pertenças. É aceitar que não há asas sem raízes. "Abensonhado" conhecimento que te “faz parir de ti próprio” ✭

* As capulanas são tecidos de algodão, estampados com padrões e cores vivas, usadas principalmente pela mulher africana. São originárias de Moçambique.



Fotografias de Bernardino Silva


domingo, 29 de janeiro de 2017

Uma ‘rebeldia’ chamada viajar sozinha

✫Há cerca de um ano li a notícia sobre Marina Menegazzo e Maria José Coni, duas jovens argentinas que viajaram de férias para o Equador. Iam cheias de vontade de conhecer novas culturas e suas gentes. Foram mortas. Senti-me revoltada com a tragédia, e senti-me indignada com as perguntas e comentários: ‘Que roupas tinham vestidas quando foram abordadas pelos homens?’. ‘Viajavam sozinhas, estavam à espera do quê?’. De facto “o mundo continua a ser um lugar mais perigoso para as mulheres do que para os homens”. E a grande questão não reside no facto de uma mulher viajar sozinha, mas sim na forma como uma boa parte do mundo continua a olhar para as mulheres. Recentemente participei na Marcha das Mulheres, um protesto internacional contra todas as formas de opressão e exploração, porque a desigualdade tem sexo e geografias. De entre muitos gritos de ordem o meu foi também para o direito das mulheres poderem viajar sozinhas em segurança.
Viajar está no topo da (minha) lista das melhores coisas da vida. Até aí, tudo bem! A pergunta sucede: _com quem vais? E eu respondo:_vou sozinha! A partir daí começam os “ses”, as interrogações e os olhares. ‘Não tens medo?’, ‘E se és assaltada? E se...’, ‘Por que vai sozinha?’. Respondo: _vou sozinha porque quero e porque gosto. Claro que as perguntas são legítimas, pois todos/as sabemos que “o mundo continua a ser um lugar mais perigoso para as mulheres do que para os homens”. 
Comecei a viajar sozinha por força de circunstâncias profissionais. Hoje viajo sozinha sem circunstâncias. As primeiras vezes tive medo, hoje sou cautelosa e procuro viajar em segurança. Gosto imenso de viajar com amigos/as. Adoro viagens românticas. E comple(men)to-me quando viajo sozinha, pois cruzo as minhas fronteiras e isso obriga-me a estar comigo, a descobrir, a arriscar, a errar e a encontrar o caminho. Limpo a mente e a alma, preenchendo-as com sensações, situações, lugares e pessoas novas. Supero-me e experimento o que quero. Crio memórias, cheias de curiosidade. Trato das viagens by myself ... faço a mochila e vou. Admito que o peso da mochila carrega também a certeza que “o mundo continua a ser um lugar mais perigoso para as mulheres do que para os homens”. Mas se me perguntarem: _ por que vou? Eu respondo: _ por que não? E resistirei nesta pergunta, porque a resposta me conduz à Liberdade.✭

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Angra do Heroísmo: uma janela do mundo

Estátua de Vasco da Gama, Pátio da Alfândega


“Valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!” (Fernando Pessoa). Frase que está gravada no chão, no Pátio da Alfândega, onde a estátua de Vasco da Gama pisa o chão de forma destemida. Quando conhecemos Angra percebemos que não podia ser de outra forma... e por isso ter sido classificada pela UNESCO como Património Mundial, pelo seu valor arquitectónico, histórico e cultural inigualável, com influências que vêm desde os descobrimentos. D. Maria II acrescentaria, pelo heroísmo das suas gentes, razão pela qual chamou à cidade Angra do Heroísmo.

Imaginemo-nos Vasco da Gama, no Pátio da Alfândega, a caminhar por séculos de uma gloriosa história que se ergue entre a brisa do mar Atlântico, que lhe bate nas costas, e o verde da montanha que desenha a vista e lhe serena o coração. Na sua passada larga e segura, percorre as ruas estreitas e reticuladas, de calçada tradicional, embelezadas por casas caiadas de branco, portadas pintadas de cores fortes, janelas adornadas e varandas de ferro talhado. Subitamente olha para trás, não por temer alguma coisa, mas porque o Monte Brasil é bonito demais para lhe ser indiferente. Hoje um Parque Florestal da cidade, que tem uma das maiores fortificações atlânticas que se conhece. Angra presta-se à descoberta sem rumo e sem pressas... à boa maneira de Vasco da Gama. Mas até ele se surpreende com a beleza dos palácios, conventos, fortificações, ermidas, capelas e igrejas, que expressam, na sua arquitetura e talha, o abandono dos modelos de construir medievais em prol do que de novo trazia a Renascença e os Descobrimentos. Ao visitar o Museu de Angra do Heroísmo, instalado no Convento de S. Francisco, e ao subir as escadas gastas pelo tempo, percebe como a Ilha Terceira respira cultura de todos os povos. Uma viagem no tempo, entre o mar e a terra, de uma janela aberta para o mundo. Como não se comover.
Na sua passada larga e segura chega à Praça Velha, a partir da qual as artérias da cidade se espandem e se organizam. A Praça segreda-lhe que o descanso se faz no Jardim Duque da Terceira, onde as flores ‘brotam’ no inverno, os pássaros esperam sempre pela primavera e as plantas exóticas evocam a história; e que o deslumbramento faz-se no Alto da Memória a D. Pedro IV, que nos brinda com um verdadeiro cartão postal de Angra. Jardim e Memória estão interligados por patamares em declive, com caminhos desenhados a pedra de basalto, intervalados com pequenos lagos e fontes. Lá do alto, onde o silêncio se impõe, séculos de história ganham sentido. Afinal, só as escadas é que estão gastas pelo tempo.
Na sua passada larga e segura, regressa ao Pátio da Alfândega, e responde: Valeu a pena!✮


Ruas, portadas e janelas em Angra do Heroísmo

Museu de Angra do Heroísmo

Igreja da Misericórdia, Pátio da Alfândega. Virada para o mar

Quadro exposto na Sé Catedral.
Para mim representando os mártires e injustiçados 
do nosso tempo

Jardim Duque da Terceira
Alto da Memória a D. Pedro IV

Vista sobre Angra do Heroísmo, do Alto da Memória a D. Pedro IV

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Ilha Terceira: que chove, chove... mas ninguém lhe fica indiferente

O dia acordou chuvoso, mas não há lugar para preguiça. Mapa da ilha na mão e vontade no coração, segui viagem. Não há nada como falar com as pessoas locais e, enquanto tomas o pequeno almoço, escutas sobre as belezas da terra, os locais de visita obrigatória, os restaurantes que servem as melhoras lapas e cracas, que cozinham o melhor peixe local – o boca negra -, ou a alcatra regional. Achei melhor não partilhar que não como carne vermelha J 
Dei a volta à ilha, visitei os principais pontos turísticos (aqueles que a chuva me permitiu), comi e bebi (d)o melhor, mas foram os recortes, as cores, as influências, confluências e minudências da ilha que me deslumbraram... daquele deslumbramento que faz os olhos crescerem.
As rotas onde a relva beija a estrada e o bosque constrói muros verdes que serpenteiam os caminhos.
Os lugares que deviam começar por “era uma vez” de tão mágicos que são, como a mata da serreta ou a lagoa das patas, de cenários idílicos, com os seus bancos a convidar ao repouso e à contemplação. Como não se render a uma área natural protegida que se chama Mistérios Negros!
O mar azul turquesa das piscinas naturais em Biscoitos, que dança por entre a composição rochosa e escura de magma, que compõe o cenário balnear.
A planície verde, de um verde pintado à mão, recortada de muros escuros e portões coloridos, que fazem da paisagem uma manta de retalhos. Em cada recorte, vacas confortavelmente acomodadas. Aqui, quem não caça com cão, caça com vaca J
A religiosidade do seu povo expressa nos “Impérios do Espírito Santo” que estão em qualquer rua ou cruzamento. A ilha conta com 71 Impérios identificados. Estruturas pequenas, com uma fachada de diferentes tipo (molduras, janelas, colunas e frisos), normalmente de cores vivas, e profusamente decorado, com símbolos do Espírito Santo.
A ilha Terceira é uma criação da natureza, até nas suas entranhas. De estrutura geológica única, brinda-nos com o leito dos vulcões e com as brincadeiras da lava. No Algar do Carvão esconde-se um cone vulcânico perfeito. Continua a chover. Pingas grossas que caem do teto e que nos fazem olhar para cima, onde vemos o grande círculo aberto ao céu, cheio de vegetação, num cenário de arrepiar.  Na Gruta de Natal caminhamos num túnel lávico com 700 metros de comprimento. Irregular, imperfeito, (com)passado, como se quer a vida. É frio no interior da terra, mas é lá que sentes o seu coração a bater... e tudo faz sentido.
O dia acordou chuvoso, mas terminou maravilhoso. A chuva fez-me andar devagar e o nevoeiro a trautear o caminho. Nestes momentos, a imaginação ganha largueza. 
Sou de viajar à la flâneur, gosto de andar sem rumo, “pelo meio”, conhecendo por dentro aquilo que o local tem para me oferecer, que é sempre único. Nem sempre dá, mas o espírito está lá. Foi assim que explorei a ilha, foi assim que conheci Angra do Heroísmo, mas isso ficará para um próximo post.


Piscinas Naturais em Biscoitos
Mata da Serreta
Caminho para Porto Martins 
Lagoa das Patas

Algar do Carvão  e Gruta de Natal

Império do Espírito Santo, Praia da Vitória

Restaurante O Pescador, Praia da Vitória


Furnas do Enxofre

Vista da Serra do Cume


Ilha Terceira, Açores



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Um café com diálogos

✫ Sento-me aqui, no lugar de sempre, bem perto da grande vitrine. Sim, é uma vitrine e não um vidro, porque através dela observo as estações, as cores e as pessoas “passarem”. Passa o tempo e o tempo passa por elas... e por mim. Há mais de dez anos que frequento o mesmo café. Gosto dele pela manhã. O que faz de um espaço ser tão especial que nos cria raízes, que nos faz dele?
É que ele já não é apenas um espaço, ele é um lugar... o lugar das coisas que são nossas, um lugar de diálogos. De diálogos  internos, dos que valorizam o silencio e põem as coisas no lugar. De diálogos confidentes, dos que contam segredos, e de diálogos sorridentes, daqueles que vêm com(o) presente. De diálogos mudos, em que tudo é dito, e nada é falado. São os olhares que se encontram, os cumprimentos afetuosos a pessoas que conhecemos há anos mas que não sabemos o nome, o sorriso (com)sentido ao ouvir a conversa do lado, que é sempre a mesma, a gargalhada coletiva quando se ouve o ladrar estridente do cão que todos já conhecem, as grávidas que aparecem com os bebés, e os bebés que já são crianças. Ele já não é apenas um café, ele é um lugar de partilhas, criador de identidade. E enquanto assim for, continuarei a sentar-me aqui, no lugar de sempre, bem perto da vitrine, a ver-me passar. ✭

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

‘Saroo’ e a infância na Índia: reatando memórias de uma viagem

☆ Nas diferentes crónicas que escrevi sobre a minha viagem à Índia, nenhuma delas foi dedicada especificamente às crianças. Algo que se tornou (emocionalmente) muito forte quando fui ver o filme “Lion – a longa estrada para casa”, uma história verídica de perseverança, que retrata a vida de uma criança – Saroo -  que, com apenas cinco anos, se perdeu do irmão ao adormecer na carruagem vazia de um comboio que o levou a Calcutá, a mais de 1500 km da sua terra natal. Declarada como criança desaparecida foi adotado por um casal australiano. Nunca se tinha questionado sobre as suas origens até entrar na universidade e a amizade com colegas indianos lhe trazer memórias do passado, que o fez iniciar uma busca obcecada pela mãe e pelos irmãos, que encontra passados vinte cinco anos, no mesmo dia em que tinha desaparecido.
Assistir ao filme fez-me regressar às ruas de Nova Deli, e tornou ainda mais clara e evidente a presença das crianças. Sempre lá... muitas, imensas. Ao ter andado por zonas mais populares, a miséria compunha o cenário. Ver Saroo vadiando e dormindo pelas ruas e pelas estações de comboio, reavivou as minhas memórias. A memória de ver crianças pequenas deambulando sozinhas pelas ruas, procurando comida nas lixeiras ou dormindo nos passeios (umas sozinhas, outras em grupos ou com os familiares). Crianças sujas e mendigas a correr atrás do turista. Crianças fazendo artes circenses nos comboios para ganhar algum dinheiro. A rua é a sua casa e as zonas turísticas os seus locais de trabalho. Crianças que não deviam estar ali. Muitas, imensas.
Mas eram crianças... de olho grande, riso aberto e alegria espontânea.
Ver Saroo a tentar sobreviver na gigantesca cidade Calcutá, a ser ignorado, enganado ou perseguido, e a ser institucionalizado num centro de acolhimento onde as crianças eram vítimas de diferentes formas de violência, reavivou a memória de um pensamento persistente: ao serem invisíveis e sobrantes numa sociedade que não tem espaço para elas, estas crianças tornam-se visíveis e vulneráveis a todas as formas de perigo: às milícias populares, às redes de tráfico de pessoas para fins comerciais de exploração sexual (prostituição, redes de pedofilia, turismo sexual e pornografia), de exploração laboral ou de adopção, aos casamentos forçados, e ao abuso sexual. Na Índia, milhares de crianças são dadas como desaparecidas e estima-se que, todos os anos, cerca de 135 mil menores caiam nas redes do tráfico de pessoas. Muitas, imensas, que pertencem à população dos que “não contam”.
Assistir ao filme fez-me regressar às ruas de Nova Deli, e tornou ainda mais clara e evidente a invisibilidade social das crianças. De facto, “quando não se é visto e se vê, o mundo oferece o horizonte mas furta a presença”. Tudo aparece apenas à visão, mas não ao toque ou à troca e, por isso, a vida social fecha-se à participação.
Mas são crianças... de olho grande, riso aberto e alegria espontânea... e têm o direito de encontrar o caminho para casa. ★

 

Fotografias tiradas por Marcelo Andrade

domingo, 11 de dezembro de 2016

“Comece pelo começo, siga até chegar ao fim e então, pare” (Lewis Carrol)

☆ Dezembro adentrou-se. Com ele vêm os balanços do ano que está a terminar e apercebemo-nos como ele passou rápido! 
Este último ano foi feito de mudanças. Talvez uma das mais importantes para mim. Eu mudei. Não tudo o que queria, nem ao ritmo que desejava, mas na quantidade certa do que precisava. Mudei as minhas prioridades e comecei a dar a importância que as coisas, as pessoas e os lugares (realmente) têm. Deixei de querer ser a minha melhor versão. Percebi que a “fuga para a frente” tem sempre efeito boomerang. Mudei o meu estilo de vida e os meus hábitos alimentares... com isso ganhei dose extra de tranquilidade, perdi peso e reforcei a minha energia e vitalidade. Cuidei mais de mim e descobri que afinal o meu coração continua a bater numa frequência superior por subtilezas, que se descompassa com “exageros bonitos” e que acredita que não vale a pena colocar intensidade nas coisas que não vibram. Passei a demorar-me, com alegria, nas pequenas coisas da vida. E esforço-me, todos os dias (e nem sempre consigo), por transformar a segurança, que tanto me conforta, mais num lugar de chegada do que numa atitude.
Não há fórmulas mágicas para a mudança, seja ela qual for. Cabe-nos sempre a nós a escolha. Escolher ou não entrar na “toca do coelho”, como fez Alice para entrar no País das Maravilhas. Escolher ou não enfrentar as “mudanças de tamanho” e as “rainhas de copas” quando nos confrontamos com o que desconhecemos em nós. Escolher ou não responder (com coragem) à pergunta existencial da Lagarta azul: “Quem és tu? Perguntou a Lagarta a Alice”.
Dezembro adentrou-se. Com ele vêm os balanços do ano que está a terminar e apercebemo-nos como é bom, de vez em quando, ser Alice. ★




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