segunda-feira, 24 de julho de 2017

Trilhos de natureza e pequenas aventuras (2): pedras no caminho? Constrói uma mariola



Alguém disse: “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”. Eu diria, guarde-as todas e construa uma mariola, porque elas nos orientam nos trilhos (da vida).
As mariolas (ou bruxas) são conjuntos de pedras, de tamanhos diferentes, sobrepostas em formato cónico. No passado, as mariolas serviam de pontos de orientação para os pastores que andavam pelas serras. Hoje, servem principalmente como pontos de referência para caminhantes de natureza, marcando trilhos que não estão referenciados ou que são menos comuns encontrar. São, portanto, as pedras boas do caminho.

Quem faz trilhos de natureza é certo que já se tenha cruzado com este montinho de pedras, colocadas com mestria, umas de estrutura mais pequenas, com apenas  2 ou 3 pedras, outras que podem atingir metros de altura. Como manter aquele equilíbrio? As mariolas são uma espécie de arte que marcam a paisagem mas, acima de tudo, reforçam a intenção e intensidade da caminhada. Ao cruzar uma mariola, a sensação é de confiança, estamos no caminho certo! E, por isso, apressamo-nos a colocar, também, a “nossa pedra” e com ela uma intenção, que renova a vontade de percorrer novos caminhos. Afinal os trilhos estão ali... cheios de imprevisibilidades, mas também de descobertas únicas.

Poço Negro, Soajo

Pitões das Júnias, Gerês
Photo by Marcelo Andrade
Photo by Marcelo Andrade


quarta-feira, 19 de julho de 2017

Trilhos de natureza e pequenas aventuras (1): o Parque Nacional Peneda-Gerês



Decidi começar a explorar trilhos de natureza. Daqueles que se fazem sem pressas e que a única coisa que nos pedem é que gostemos deles. Há uma imensidão de propostas e sítio fantásticos para conhecer. Mas por onde começar? A escolha foi vizinha, o Parque Nacional Peneda-Gerês*. Sim, eu sei o que estão a pensar J O Gerês é “um mundo”... mas quem é que tem pressa?
Dizer que a beleza do Parque Nacional Peneda-Gerês é inigualável tornou-se já um lugar comum. Não há quem o visite que não fique fã das suas paisagens. A natureza no seu esplendor. E por esse motivo, o Gerês só se pode conhecer por dentro. A sua alma está no som da água que sai das entranhas das montanhas e forma cascatas e piscinas naturais, de água translúcida. Rios, ribeiros e pequenos cursos de água que alimentam o verde da paisagem, que atiçam o espírito de descoberta e aventura dos mais audazes e que permitem verdadeiros deleites visuais. O seu coração está nos batimentos de vida da sua fauna e flora, imensamente diversa, algumas raras, de valor ecológico e etnográfico ímpar. A sua história está nas pequenas aldeias que mantêm raízes firmes na tradição rural portuguesa e nos monumentos megalíticos e de ocupação romana (mosteiros, santuários, pontes, calçadas, caminhos, marcos...) que embelezam o cenário.
Por onde começar? A pergunta voltava a impor-se. Afinal o Gerês é “um mundo”! Não faltam sugestões de trilhos, caminhos e caminhadas. Há para todos os gostos e graus de dificuldade. Com a companhia certa percebes que os trilhos se constroem à tua medida e que, por vezes, quando sais do(s) trilho(s), és surpreendido/a com o melhor... a melhor das paisagem, a melhor das conversas, o melhor dos petiscos ou o melhor dos cansaços, aquele que te faz sentir vivo/a.
Mochila nas costas, calçado confortável e adequado, fato de banho e roupa leve, água fresca e alguma comida... e fizemo-nos à estrada. O dia começou bem cedo e levou-nos à tão conhecida cascata Tahiti, que tanto turismo atrai, à inusitada Cascata Cela Cavalos e à tradicional zona de Pitões das Júnias. Em cada local os caminhos fazem-se a pé e pedem permanências. Afinal, quem é que tem pressa?

    
Cascata Tahiti, Ermida, Gerês
A cascata Tahiti (Fecha de Barjas) é acessível apenas por caminhos pedestres, um tanto sinuosos, o que aumenta a dificuldade no acesso ao local. Mas chegados lá, somos surpreendidos/as pela sua beleza e pela serenidade das águas que beijam as rochas. Não se pode perder o mergulho. As águas são cristalinas e relativamente quentes, olhando ao contexto J

Cascata Tahiti, Ermida, Gerês
Cascata Cela Cavalos, Gerês
Continuamos viagem em direção à Cascata Cela Cavalos. Uma cascata menos movimentada, talvez pelos seus acessos. Estacionado o carro, numa pequena aldeia (Lapela), precisamos de andar mais de meia hora, por caminhos bastante irregulares, mas parte desse caminho é feito com uma vista espetacular sobre o vale e o rio (cávado). A meio, começamos a ouvir o som da água... não se percebe bem de onde vem, mas vai-se tornando mais intenso. E lá está ela! As águas são muito frias, é uma verdade, mas não há como lhe negar um mergulho e descansar sobre as suas gigantescas rochas, que amparam as pequenas lagoas que a queda de água cria.


Cascata de Pitões das Júnias, Gerês

Mais a norte, Pitões das Júnias, uma das aldeias mais visitadas do concelho de Montalegre. Tem percursos pedestres riquíssimos, uma cascata que reflete o verdadeiro espírito da montanha, e um mosteiro – Mosteiro de Santa Maria das Júnias – erguido no século XII, de estilo Românico e Gótico, que é monumento nacional desde 1950. 
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Chegamos lá a meio da tarde, a fome apertava, e por isso a paragem fez-se no Restaurante Casa do Preto (http://www.casadopreto.com/), onde comemos uma sopa bem caseira, acompanhada de pão e uma tábua de queijo e presunto locais. Mas foi a conversa prazerosa com a dona do restaurante que animou a paragem. Visitamos o Mosteiro, mas a surpresa fez-se na cascata. Sem trilho de acesso, lá começamos a descer e a explorar caminhos. Descemos mais um pouco. A vegetação é densa e frondosa, o declive acentuado, mas a descida faz-se em segurança. De repente, os olhos cruzam-se com pequenas piscinas naturais, incrustadas na montanha desnivelada, e viradas para as encostas de outras e tantas montanhas que desenham uma paisagem do local. Ali, o silêncio perfeito da natureza. Ali, sentes-te parte dela. Naquele momento, sentes-te “just a lost boy, not ready to be found”, como diz a letra de uma música.


      
Fachada do Mosteiro Pitões das Júnias, Gerês


 Lateral do Mosteiro Pitões das Júnias, Gerês

Uma das pequenas piscinas naturais da cascata de Pitões das Júnias, Gerês

O regresso fez-se ao entardecer. O pôr-do-sol acompanha-nos e a sua luz bate nos vidros do carro. O cansaço afirmar-se, mas as palavras que se dizem são: venha o próximo!



* Situa-se no extremo noroeste de Portugal, na zona raiana entre Minho, Trás-os-Montes e a Galiza