sexta-feira, 14 de abril de 2017

Uma espécie de (far)oeste: um passeio pelo terminal da linha do Douro

Peguei e fui. O Douro sempre me fascinou. A forma como serpenteia a terra e como permite que as encostas, bem vaidosas, se espelhem nas águas. Quando a luz é a certa... a imagem rouba-nos as palavras, que já são poucas para o que os olhos veem. Peguei e fui. Da Régua ao Pocinho, a viagem fez-se de comboio. Sabiam que o comboio beira tanto o rio que parece querer beijá-lo? Agora percebo que só poderia ter paragem na Alegria (nome de um dos apeadeiros).
O dia estava quente. No ar condicionado do comboio, imaginava como seria bom fazer aquele percurso com a cabeça de fora de uma qualquer janela de madeira, bem escancarada, afinal é (lá) fora que o mundo passa. O comboio segue viagem, a paisagem vai mudando e o rio como que se adelgaça... fico sem saber se é ele que se estreita ou se são as margens que o comprimem. Da encosta verde e socalcada, cheia dos sonhos de ontem, passamos a paisagens mais agrestes, rochosas e acastanhadas. Belas à sua maneira. Adentramos o interior, chegamos à estação final, que de final só tem a paragem. Estamos no km 171, 913. A linha férrea, desativada, recorda tempos idos, mas a primavera que brota de entre o ferro convida a continuar o trilho da linha.
Proibido passar, dizia o sinal! Mas o buraco na rede estava lá... como não passar! A ponte de ferro estava bem à minha frente. Melancólica e sozinha, lá estava ela a forçar diálogos entre margens. Desde que construíram a barragem, o rio já não lhe faz festa(s). É preciso sentar um pouco e ouvir o silêncio. Está na hora de regressar, o sol quer pôr-se de cansado. O dia continua quente. Sentada na estação, bebo uma cerveja e como uns tremoços. Passa uma pessoa, duas no máximo. Um cão que se passeia por lá, ladra para dar sinal de vida. Fito o horizonte, campesino e acastanhado, e quase jurava que dali a uns minutos poderia passar um cowboy a galope, não fosse o cenário tão parecido com o faroeste.







1 comentário:

Vera Duarte disse...

Para os/as interessados/as: http://fugas.publico.pt/Viagens/372699_antiga-linha-do-tua-vai-ser-uma-ecopista
"Arrancaram esta quarta-feira os trabalhos para transformar a antiga linha ferroviária do Tua numa ecopista com quase 70 quilómetros, num projecto turístico que envolve os municípios de Bragança, Macedo de Cavaleiros e Mirandela."