terça-feira, 25 de abril de 2017

O que faz uma cidade ser mais bonita do que outra?

Vais para aí? Perguntam-te quando viajas. 
Uns dizem-te: _ que cidade maravilhosa!!. Para outros: _ ui, mas essa cidade não tem nada de especial. Outros ainda comentam: _ com tantas cidades bonitas vais mesmo escolher essa? A pergunta coloca-se. O que faz de uma cidade mais bonita do que outra? O que nos liga mais a uma cidade do que a outra? Perguntas que não sendo novas, retomei nesta minha última saída para a Corunha. Com grandes expectativas, minhas e criadas por outros, várias vezes verbalizei, talvez menos vezes do que as que pensei, que continuava a gostar muito mais de Baiona. É verdade que isso não retira a beleza e os encantos da cidade, mas não deixa de a esvaziar da ligação emocional.
Poderia esgrimir aqui vários argumentos para responder a esta questão. Todos eles falíveis, por estarem alicerçados em gostos, experiências, preferências e afeições (que não são discutíveis!!). Acho que o que faz uma cidade mais bonita do que outra é tornar-se uma casa espaçosa no coração. Ser um lugar onde a alma se desprende de nós e fica a vaguear pelas ruas, permitindo constantes regressos. Aqueles lugares onde a alma viu as pessoas, esbarrou com os sorrisos, olhou os seus deuses, cores e culturas, cheirou os aromas e espantou-se com os recantos. Lugares que nos “curam” e onde nunca nos sentimos sozinhos/as. Daqueles para onde queremos sempre voltar, para ir buscar um pouco da alma que por lá ficou.
O que faz a “tua” cidade ser mais bonita do que as outras?


sábado, 22 de abril de 2017

Aventuras de uma portuguesa que leva chocolates suíços para a Bélgica


-“Trazes chocolates para a Bélgica? E suíços?” Disse-me ela, com cara de desânimo. No momento não percebi, admito que até fiquei um pouco desolada, depois foi gargalhada geral, quando me apercebi que havia lojas de chocolate porta sim, porta sim! Chocolates de todas as formas e feitios, expostos em vitrines como se de joias se tratassem. Quem é que leva chocolates para a Bélgica? Só mesmo eu!! J
Visitei a Bélgica de saltito em saltito. Bruxelas, Leuven, Bruges, Ghent e Dinant. Todas bonitas. Bruxelas recebeu-me, Leuven acolheu-me, Dinant surpreendeu-me, Ghent abraçou-me, mas foi em Bruges que o meu coração palpitou. Foi de comboio que desenhamos a jornada. Uma das melhores formas de viajar pela Bélgica, mas nem sempre muito fácil. Sem saber, o comboio contou-nos um pouco da história de um país cheio de fronteiras simbólicas, linguísticas e culturais que fazem do passado ainda muito presente. Das janelas vislumbramos paisagens e cores diferentes à medida que nos deslocávamos para norte ou para sul. Pelas suas gentes, que entravam e saíam a cada apeadeiro, desvelamos a Bélgica dos flamengos, falantes do neerlandês, e a Bélgica dos valões que falam o francêsAcho que foi esta confusão que me fez levar chocolates suíços para a Bélgica!! 
Cheguei por Bruxelas. Dela guardo a imagem da Grand Place que é Património Histórico da Humanidade pela UNESCO desde 1988, e dos passeios obrigatórios pelas ruas e ruelas do centro. Cheias de gente e multiculturalidade. Em cada esquina, lojas de chocolates e de frite (batatas fritas), mas são as waffles que definem o cheiro da cidade. Sim, Bruxelas cheira a waffles. Não precisamos de muita atenção para encontrar os imensos murais espalhados pelas ruas com obras de artistas belgas famosos, como Hergé, autor do Tintim, mas precisamos de algum esforço para esconder a desilusão sentida quando encontramos o Manneken Pis. Tira-se a foto, mas os olhos não crescem de admiração.

Bruxelas

Murais em Bruxelas, Tintim

Leuven acolheu-me. Uma cidade universitária, a Coimbra da Bélgica (deve ser por isso que é a capital da cerveja JJ) que cresce sob uma arquitetura imponente, mas repleta das regalias da urbanidade. Uma cidade que tem tudo: história, cultura, modernidade e animação. Não há como não se fascinar com a Town Hall (Câmara Municipal), edifício de estilo gótico, construído no século XV, com as paredes todas ornamentadas e esculpidas, que mais parece um bordado.


Town Hall, Leuven
Para norte, Ghent e Bruges. Cidades que nos levam por passeios tranquilos e imersões históricas. Fica a ideia de que se lermos um pouco de história, é possível reviver as trocas comerciais entre os mercadores da época. Cidades medievais, bem preservadas, com edifícios históricos,  de traçado original, e fachadas trabalhadas e pontiagudas, de um colorido tímido mas bem marcado, que recorta o céu. Castelos, torres medievais e igrejas centenárias. Ruelas ondulantes por entre os bucólicos canais que atravessam a cidade. Grandes praças, sorridentes quando o sol espreita. Ghent, também conhecida como “pérola de Flandres”, é uma cidade charmosa, daquelas que nos pisca o olho, como que a convidar para ficar. Ficamos indecisos/as... mas visitar primeiro Bruges, não é justo para Ghent. Quando chegamos a Bruges a sensação que temos é que o tempo parou, uma espécie de “bela adormecida” desperta pelo beijo do turismo que hoje a caracteriza. Talvez isso lhe tenha garantido os títulos de Património da Humanidade pela UNESCO, em 2000, e de Capital Europeia da Cultura, em 2002. Para uns, a “jóia da coroa da velha Flandres”, para outros “a Veneza do Norte”. Qualquer um dos predicados lhe cai bem. Para mim, uma pintura inspirada quando Deus decidiu criar o mundo.

Bruges

Ghent
Para sul de Bruxelas, duas horas de comboio leva-nos a Dinant. Uma cidade na beira do rio Meuse que só podia fazer parte de uma província chamada Namur, não fosse o encantamento que sentimos quando a vemos. Desenhada numa “montanha de pedra”, tem na Igreja gótica de Notre-Dame Collégiale e na Citadelle, a sua magia. Não uma magia de “conto de fadas” como alguns (d)escrevem, mas a magia que sai do som de um qualquer saxofone que embeleza a ponte central da cidade (nota de curiosidade: Dinant é a terra natal do inventor do saxofone).



Pouco sabia sobre a Bélgica, além  do facto de ela ter tido um lugar de destaque na história, pela sua atividade comercial e cultural e, mais atualmente, por ser o centro nevrálgico da União Europeia. Se há algo que é apaixonante na Bélgica é, sem dúvida, a diversidade do seu património histórico, cultural, linguistico e a diversidade das suas gentes. Regressei com o sentimento de que muito ficou por conhecer... e ainda bem! Precisamos sempre de um motivo (ou não!) para regressar... mas desta vez, sem chocolates!!!



sexta-feira, 14 de abril de 2017

Uma espécie de (far)oeste: um passeio pelo terminal da linha do Douro

Peguei e fui. O Douro sempre me fascinou. A forma como serpenteia a terra e como permite que as encostas, bem vaidosas, se espelhem nas águas. Quando a luz é a certa... a imagem rouba-nos as palavras, que já são poucas para o que os olhos veem. Peguei e fui. Da Régua ao Pocinho, a viagem fez-se de comboio. Sabiam que o comboio beira tanto o rio que parece querer beijá-lo? Agora percebo que só poderia ter paragem na Alegria (nome de um dos apeadeiros).
O dia estava quente. No ar condicionado do comboio, imaginava como seria bom fazer aquele percurso com a cabeça de fora de uma qualquer janela de madeira, bem escancarada, afinal é (lá) fora que o mundo passa. O comboio segue viagem, a paisagem vai mudando e o rio como que se adelgaça... fico sem saber se é ele que se estreita ou se são as margens que o comprimem. Da encosta verde e socalcada, cheia dos sonhos de ontem, passamos a paisagens mais agrestes, rochosas e acastanhadas. Belas à sua maneira. Adentramos o interior, chegamos à estação final, que de final só tem a paragem. Estamos no km 171, 913. A linha férrea, desativada, recorda tempos idos, mas a primavera que brota de entre o ferro convida a continuar o trilho da linha.
Proibido passar, dizia o sinal! Mas o buraco na rede estava lá... como não passar! A ponte de ferro estava bem à minha frente. Melancólica e sozinha, lá estava ela a forçar diálogos entre margens. Desde que construíram a barragem, o rio já não lhe faz festa(s). É preciso sentar um pouco e ouvir o silêncio. Está na hora de regressar, o sol quer pôr-se de cansado. O dia continua quente. Sentada na estação, bebo uma cerveja e como uns tremoços. Passa uma pessoa, duas no máximo. Um cão que se passeia por lá, ladra para dar sinal de vida. Fito o horizonte, campesino e acastanhado, e quase jurava que dali a uns minutos poderia passar um cowboy a galope, não fosse o cenário tão parecido com o faroeste.







quinta-feira, 13 de abril de 2017

Open World Awards

Em jeito de brincadeira candidatei o meu blogue ao Open World Awards promovido pela Momondo (site de pesquisa de voos e hotéis). Recebi o email dizendo que o blogue tinha sido selecionado. Admito que fiquei surpreendida. Como sabem não sou uma blogger de viagens, apenas uso o meu blog pessoal para inspirar outros a viajar. Quando escrevo sobre as minhas viagens não pretendo criar roteiros, mas partilhar vivências e sentimentos... e dessa forma levar cada um dos/as leitores/as a viajar comigo.
Para continuar no jogo preciso dos vossos votos. As regras são simples e claras, podem votar uma vez por dia. A votação termina dia 30 de Abril.

Para votar, podem fazê-lo através deste link: http://www.momondo.pt/content/bloggers-open-world-award…
Conto com o vosso apoio :-)

Mas não se esqueçam de espreitar os outros blogues, são fantásticos :-)
Mais informações em:
http://www.momondo.pt/content/bloggers-open-world-award

terça-feira, 21 de março de 2017

O que é a felicidade para ti? Arriscas-te?

Lia em algum sítio: “a felicidade mora dentro de nós”. Um daqueles clichês que me fez lembrar de uma conversa com um amigo em que falávamos sobre as sinuosidades da felicidade e constatávamos que é grande a tendência em reduzir a felicidade ao Ter... sucesso, trabalho, casa, imagem, dinheiro, amigos, relacionamentos amorosos, filhos/as... Tudo importante, mas igualmente frágil. Como assentar a felicidade apenas no que é externo a nós? Ao fazê-lo vivemos uma espécie de voyeurismo com a felicidade e flirtamos com ela na espera de cumprir o “felizes para sempre”, esquecendo que a felicidade é sentida, não é tida. Queremos uma felicidade a tempo inteiro e por isso transformamo-la numa montra, que pulula por todo o lado, esquecendo que para se ser feliz não é preciso rejeitar a tristeza e os dissabores. A felicidade também (o)corre entre as imperfeições dos dias tumultuados.
Tenho de concordar com o cliché: “a felicidade mora dentro de nós”. Mora em tons mais simples e em formatos menos polidos. Mora na forma como lidamos com o que pensamos e com o que sentimos e como vivemos com o que temos. Na forma como integramos o passado e nos libertamos do futuro. Na forma como tomamos as nossas decisões e lidamos com as suas consequências. Na forma como somos e nos aceitamos. Ser feliz é uma escolha, nem sempre fácil, que chega na medida certa quando vem de dentro, e que (se) transborda quando é transformada em caminho. E se há coisa que dividida pode somar, além do amor, é a felicidade.
Lia em algum sítio: “a felicidade mora dentro de nós”. Um daqueles clichês que eu gosto!


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terça-feira, 7 de março de 2017

“As notícias que nos chegam de África são sempre más”: parte I

O imbondeiro* estava lá, firme, imponente. Fiquei parada a olhar para ele. Reza a lenda que é curandeiro. Enrugado de velho, sussurra... sussurra-nos África, aquela onde o deslumbre e a decadência se tocam, a abundância e a pobreza convivem de forma extremada. Não fosse o imbondeiro, na narrativa de Mia Couto, um “abrigo às personagens fatigadas”. Aproximei-me mais, fiquei em silêncio, e percebi que não mais regressaria a mesma. Luanda já me tinha marcado, ainda não sabia era como.
Quando fazemos voluntariado, em locais distantes como estes, distantes em tudo, testando tudo, os trajetos que fazemos não são turísticos e as ruas por onde circulamos não são para turistas. Mergulhamos nos locais sem boia ou braçadeira e a sensação que temos é que estamos a submergir... debatemo-nos ruidosamente e gastamos todas as nossas forças lutando contra a constatação de uma realidade inaceitável e incomportável. Onde guardar, em nós, o confronto com a miséria extrema. Com os “ninguéns” de Eduardo Galeano, “os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida (...). Que não são, embora sejam. Que não falam idiomas, falam dialetos. Que não praticam religiões, praticam superstições. Que não fazem arte, fazem artesanato. Que não são seres humanos, são recursos humanos. Que não têm cultura, têm folclore. Que não têm cara, têm braços. Que não têm nome, têm número. Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata” (Livro dos Abraços).
Depois de nos debatermos ruidosamente, vem o silêncio. O imbondeiro já me tinha sussurrado! E foi nesse silêncio de recetividade (que é diferente de aceitação) que a história se construiu. Umas vezes histórias, outras vezes estórias.
Visitamos e conhecemos vários projetos que estavam a ser desenvolvidos por missões religiosas nos bairros mais pobres de Luanda. Poucos quilómetros significavam horas no trânsito. Andar a pé não era opção, por questões de segurança (não fosse Angola, à data (2007), o 10.º país mais violento e inseguro do mundo). Parecia haver apenas uma estrada, todas iguais, entupidas de carros colados à traseira de outros, motas apressadas e desgovernadas, buzinas ensurdecedoras. Buracos, engarrafamentos, acidentes, atropelamentos. Pó, poeira, uma névoa.
Musseques** que beiram a estrada, mercados de rua a perder de vista, o único lugar onde os/as angolanos/as pobres conseguem comprar alguma coisa. O que esperar quando a cerveja é mais barata do que água? Ruas sem passeios, sujas de lixo que se acumula e esgotos a céu aberto, onde se vende comida e brincam crianças. Correm por todos os lados, descalças ou de chinelos, barulhentas como se querem, chapinham nas poças de água turva que a últimas chuvas encheram. Uma em cada três crianças não passa os três anos de idade, contavam-me.
A cor das capulanas das mulheres decorava as ruas e fixava o meu olhar. Não pela cor mas pela condição. Mulheres carregando os filhos às costas, ao mesmo tempo que suportam o peso da mercadoria que vendem nas ruas. Equilibram sobre a cabeça sacos, cestas e bacias, parecendo desafiar as leis da física. Chamam-lhes zungueiras. Circulam apressadas, não há tempo a perder, são elas as lutadoras e provedoras do lar. Numa inexorável marcha de vida, percorrem a cidade o dia todo. Por isso grande parte dos projetos de desenvolvimento comunitário têm as mulheres como destinatárias, dizia-me a responsável por um desses projetos. Neste mês dedicado à Mulher, tributo esta crónica à mulher zungueira, exemplo de coragem e dignidade, mas também expressão da condição da mulher pobre em África, vítima das mais variadas formas de violência.
Dizem que o imbondeiro é curandeiro, sussurra-nos África... nem sempre a que queremos ouvir, mas a que precisamos de saber.
(To be continued...)

* Imbondeiro ou embondeiro é uma árvore também conhecida como Baobá Africano. Possui um tronco muito espesso na base, pode atingir até nove metros de diâmetro, que se vai estreitando em forma de cone. É considerada uma árvore sagrada. 
**Bairro de construção precária, nos arredores de uma grande cidade, onde habitam os moradores menos favorecidos












Fotografias de: Bernardino Silva



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domingo, 5 de março de 2017

Ser ‘super-herói’, para quê?

O que é ser uma pessoa forte?
Tenho pensado sobre isso...
Sempre admirei pessoas fortes. Daquelas que não perdem tempo a lamentar-se, que vão e fazem sem se esquecer de colocar uma pitada de generosidade no que dão. Daquelas que não precisam da força física para mostrar que são resistentes. Daquelas que mesmo depois da queda se levantam com dignidade, como prova de carácter, e iluminam a vida (dos outros) com um sorriso espontâneo. Daquelas que sabem que sem esforço não há resultados e que foi esse esforço que as tornou mais fortes. Daquelas que não deixam que ninguém decida a sua vida por si e que assumem as consequências das suas escolhas, sendo protagonistas das suas próprias vidas. Daquelas que não choram e não gritam, mesmo quando desfeitas por dentro.
Sempre admirei pessoas fortes, porque achava que elas sofriam menos. Não podia estar mais errada. Sempre quis ser uma pessoa forte e durante muito tempo a imaturidade fez-me confundir força com ausência de sentimento. Não podia estar mais errada. Construímos a força vestindo fatos de ‘super-heróis’ (ou de super-vilões). Vesti-los torna-se uma necessidade, escolhê-los uma questão de sobrevivência. Alter-egos que nos trazem uma sensação de bem estar e de segurança, que ocultam as nossas fraquezas e cansaços, e que reforçam as certezas dos motivos da sua criação. Como deixar de os vestir e encenar? Como abandonar essa sensação tão boa (como altiva) de força, poder e indispensabilidade. Passado um tempo são eles que nos vestem, e nós tornamo-nos, simultaneamente, seu espelho e reflexo. E debatemo-nos, imobilizados pela própria imagem que criamos.
O que é ser uma pessoa forte?
Só sei que não é ser ‘super-herói’.
Tenho pensado nisso...