sábado, 11 de novembro de 2017

The World of Steve McCurry: como se fotografa a vida?


Será possível viajar através da fotografia? 
Não tenho dúvidas que sim e, por isso, os trabalhos de Steve McCurry sempre me fascinaram. Se o retrato de Sharbat Gula, a rapariga afegã de olhos verdes que foi capa da National Geographic em 1984, foi o início desse deslumbre, hoje é apenas uma das fotografias icónicas de McCurry. Impactante, é verdade, mas uma de entre tantas que nos deixam sem fôlego. Não apenas pela sua beleza estética, mas pela profundidade do pormenor. Pela intimidade que nos permite com aquelas pessoas, ali, a olhar para nós, uma e outra vez, com rostos e olhares de uma dureza poética. Pelo silêncio barulhento daqueles lugares - da Índia ao Afeganistão, passando pelo sudoeste asiático, África, América do norte e do sul - que nos contam a história do mundo. O caos, o terror, o desastre, mas também a beleza e uma humanidade comum. Não há exotismo nas suas fotografias, há vidas vividas e vivenciadas, há histórias que o mundo precisa de saber.
A exposição “The World of Steve McCurry”, na Alfândega do Porto até ao final do ano, tem tudo isto... um adentramento na (sua) vida, que começa em 1979/89, no Afeganistão, onde faz a sua primeira reportagem e onde a visita começa. Daqui, entramos num labirinto de imagens e cor, sem sequência cronológica ou ordem estabelecida. És tu que traças o percurso e que escolhes as imagens onde queres permanecer mais tempo, como se fosses o próprio McCurry a "calcorrear as ruas e a confiar no que o olho capta". Algumas fotos são narradas pelos próprio autor, que as descreve, fala das sensações que teve e do contexto da sua produção. De repente, a foto ganha vida e começa a falar contigo. Incrédulo/a encetas o diálogo. Umas vezes comoves-te, outras sorris,  mas nunca lhe ficas indiferente. “Uma boa fotografia é aquela que entra na memória, uma imagem que fica contigo”, diz Steve McCurry. E pela sua lente viajas pelo mundo, cru como ele só, mas cheio de esperança.




Mais informações sobre a exposição:  http://stevemccurryworld.com/

sábado, 7 de outubro de 2017

Trilhos de natureza e pequenas aventuras (5): Ecovia do Vez

                                                       
A Ecovia do Vez, que fica no concelho de Arcos de Valdevez, é constituída por três etapas, num total de 33 km. A primeira etapa da Jolda S. Paio até aos Arcos de Valdedez, com cerca de 12,5 km. A segunda etapa, dos Arcos até Vilela, numa distância de quase 10 km. E a terceira e última etapa, de Vilela a Sistelo, que distam entre si um pouco mais de 10 km.
Andava a namorar este percurso, há algum tempo. Comecei por ler um pouco sobre a região e o percurso, as suas dificuldades e surpresas, mas também contactar com a experiência de quem já percorreu esta ecovia. Perceber o grau de dificuldade dos trilhos ou se há transporte possível no final de cada etapa é importante para decidires se fazes a ecovia toda ou por etapas. Se fazes num dia ou em dois. Apesar desta preocupação, admito que não há nada como ir ao local, conhecê-lo na primeira pessoa, e dar-lhe uma palavrinha e um aperto de mão. 
Fomos sem grande planos, sabendo apenas que tinhamos meio dia para lhe dedicar. O dia estava ensolarado. Optamos por iniciar nos Arcos de Valdevez, na Praia Fluvial da Valeta, e fazer a Etapa 2 da ecovia. 10 km pareciam exequíveis (mesmo que eles duplicassem, caso precisássemos de regressar a pé). Esta Etapa faz-se quase sempre junto ao rio, num percurso que varia entre piso de terra, pedra ou alguns segmentos em que andamos sobre passadiços de madeira. A natureza acompanha-nos sempre, mas também as estradas regionais e nacionais que acinzentam a paisagem. O percurso é bonito, mas não deslumbrante. Em quase dez km de trilho, confesso que foram os últimos três km que prenderam mais a minha atenção. Muita mais beleza, muito mais verde, muita mais natureza... uma espécie de prelúdio da Etapa 3 que todos/as dizem ser a mais bela e exigente. 
Na ponte medieval de Vilela, o tempo era de descanso. Na fresca das margens, a cheirar a hortelã, o rio espelha a ponte. Nela confluem vontades, de quem está a chegar ou a iniciar nova Etapa, protegidos pela "alminha" com a imagem de Santa Luzia. Nela ouvem-se histórias. Nela parece que todos se conhecem. Afinal não é apenas a ponte que une margens!!
O regresso aos Arcos de Valdevez foi feito também de aventura e diversão... e regressar à boleia foi uma solução. De dedo em riste não precisamos de andar muitos metros. Apanhamos a melhor das boleias, de um autocarro de excursão, que na mesma sintonia vinha cheio de alegria e boa disposição.
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Uma Etapa está feita... a outra decidida. Começaremos onde acabamos. Vilela - Sistelo será a próxima paragem.












Photo by Marcelo Andrade e Vera Duarte

domingo, 3 de setembro de 2017

Trilhos de natureza e pequenas aventuras (4): 'Sistelo ao luar'





Uma experiência diferente. Foi assim que vivenciei "Sistelo ao Luar: trekking com as estrelas", organizado pela Borealis, ontem, dia 2 de setembro.
Há muito que oiço falar na aldeia de Sistelo, no concelho dos Arcos de Valdevez, às portas do Parque Nacional da Peneda-Gerês, junto à nascente do rio Vez. Para alguns, o “pequeno Tibete português”, por causa da configuração dos seus terrenos, em socalcos.  Uma marca identitária única, que tem sido moldada há centenas de anos. Hoje, mote para o desenvolvimento turístico da região.
Vi os socalcos? Não. Isso terá de ficar para uma próxima vez. Mas descobri que o céu de Sistelo também é feito de "socalcos" e que o Miradouro da Estrica (que também é um trilho) é um lugar privilegiado para conhecer os mistérios das noites estreladas e os nomes e os desenhos das constelações estelares. Para onde fica o norte? Procurem a Estrela Polar... e, quase como que por magia, desenha-se uma rosa dos ventos no céu. Sabiam que a Estrela Polar não é a que mais brilha? Mas é a única que permanece sempre fixa no firmamento. Aqui entre nós, acho que até a Lua lhe presta reverência. 
Ao longo do trilho, fomos ouvindo histórias de cordel sobre os nossos antepassados, e recriando, nas nossas cabeças, cenários míticos. Não fosse a noite a melhor amiga da fantasia e da criatividade. O barulho das botas a pisar as folhas, a luz das lanternas a espreitar por entre a escuridão, o ramo que se parte, o caminho que não se vê. O que perdemos em visão de detalhe, ganhamos nos outros sentidos. Apuramos a visão periférica para que a noite ganhe forma(s). Ouvimos mais e melhor. Identificamos, pelo cheiro, as árvores, as flores ou as ervas que se passeiam entre nós.  E, pelo tacto, fazemos parte do caminho. 
O trilho em si não é difícil, mas trilhos noturnos são sempre mais exigentes, como o são os sons da noite. De regresso à aldeia,  já perto da meia noite, um chá quente e um bolo animaram uma visitinha à lua (pelo telescópio). 
Vi os socalcos? Não. Ontem, para mim, Sistelo foi luz e lua.
Uma experiência diferente, onde o tempo se demora.

Aviso à navegação
J 
Quando a reportagem fotográfica do evento estiver disponível, atualizarei este post para poderem ver aquilo que eu senti.




domingo, 13 de agosto de 2017

“Terra à vista”: a Pedra da Gávea no Rio de Janeiro

Pedra da Gávea, Rio de Janeiro
Foto retirada da internet
A Pedra da Gávea é um dos morros que marca a paisagem do Rio de Janeiro. Beija o céu pela sua altura, 844 metros, o que a torna uma das montanhas mais altas do mundo às margens do oceano. E ergue-se firme de entre a Floresta da Tijuca, com a sua vegetação nativa exuberante. Reza a história que o nome da montanha foi dado pelos marinheiros de uma expedição portuguesa, em 1502, que reconheceram, na silhueta da pedra, a forma do cesto da gávea. A gávea era o ponto mais elevado das antigas embarcação à vela onde se construía um cesto de observação – cesto da gávea - onde permanecia o marinheiro vigilante esperando por avistar terra. Na gíria dos barcos quinhentistas (portugueses e castelhanos) o cesto da gávea era também chamada de ‘caralho’. Parece que gritar "Terra à vista" se tornou o grito do ‘caralho’. E quando alguém se portava mal, era mandado para o ‘caralho’. Ainda bem que os marinheiros, na hora de dar o nome à montanha, tiveram o bom senso de não usar a gíria J
Devem estar a pensar... mas não seria mais interessante falar no Corcovado, com o seu Cristo Redentor, que recorta os céus com a sua imagem imponente e memorável, sempre de braços abertos olhando por todos/as! Ou falar no Pão-de-Açucar e do seu ‘bondinho’ que, desde 1912, dá asas a quem o quer visitar, permitindo observar uma das paisagens mais belas do mundo! Ou até falar no Morro Dois Irmãos, que se avista da praia de Ipanema, e que enquadra pores-do-sol inesquecíveis. Sim, talvez fosse mais interessante... mas a verdade é que nem sempre nos apaixonamos pelo mais belo, mas pelo que instiga a nossa curiosidade. Foi o caso. E é sobre sentires que eu escrevo.
Suponho que a Pedra da Gávea tenha tido maior impacto em mim por me ter sido “apresentada” durante a visita que fiz à favela da Rocinha. Naquele momento os sentimentos eram antinómicos. Ao mesmo tempo que a Rocinha era uma janela aberta, com vista privilegiada, sob a Pedra da Gávea, estimulando deslumbramentos, ela obrigava ao confronto com as disparidades e as desigualdades sociais que compõem a favela, a maior favela da América Latina. Os sentimentos continuavam contraditórios, pois foi deste local, aparentemente feito de feiuras, que vi, ouvi e me fascinei pelas histórias, pelos mitos e pelas lendas da Pedra da Gávea.
O entusiasmo das narrativas de César, um morador da Rocinha que nos acolheu em sua casa, transformou o Morro da Gávea num palco repleto de arrebatamentos e confabulações. A Pedra da Gávea olha-nos nos olhos, e fá-lo através da imagem de uma cara esculpida na rocha, cuja origem é muito controversa e debatida. A esta imagem, marcante, juntam-se lendas e contos. Umas sobre as inscrições na rocha, numa linguagem muito antiga, que muito acreditam ter origens sobrenaturais. Outras falam sobre grutas com cavernas longas que atravessam a Pedra da Gávea de “orelha a orelha”, ou até sobre a existência de um “portal”, que dizem ser a entrada para um mundo subterrâneo. Outras estórias, ainda, falam das trilhas, dificílimas, que mais parecem saídas do filme Salteadores da Arca Perdida, e que têm instigado lendas de maldição que são colocada sobre aqueles/as que ousam violar a tumba de um Rei Fenício, que terá passado por terras brasileiras em 856 a.c.

Histórias e mais estórias se constroem sobre a Pedra da Gávea. Não sei se são verdadeiras ou não, talvez isso nem seja o mais importante. O que sei é que a fixei, e senti o pulsar das suas entranhas. E daquela varanda, na favela de Rocinha, como marinheiro na Gávea, tive vontade de gritar “Terra à Vista”.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Trilhos de natureza e pequenas aventuras (3): do Soajo à Senhora da Peneda


Mais um dia, outro trilho. Este levou-me do Soajo à Senhora da Peneda.
A primeira paragem fez-se na vila do Soajo com uma visita aos Espigueiros, uma das maiores atrações turísticas da zona. Chamam-lhe a Eira Comunitária do Soajo, tem 24 espigueiros todos em pedra, que descansam sobre grandes rochas de granito, contemplando a serra. O mais antigo é datado de 1782. À conversa com um morador da vila, ele explicava que os "Canastros", outro nome dado aos Espigueiros, são utilizados para secar o milho, o que  explica a sua localização e desenho. Ou seja, são colocados em sítios mais altos, para que os animais não acedam e comam o milho; a pedra é rasgada para o ar circular entre as espigas; e a cruz ou cruzes que têm no cimo revelam a devoção da população e um pedido especial de proteção divina. Não há como parar e falar com as pessoas locais. O quanto temos a aprender com elas. Em tom de exclamação, acrescentava: "mas há quase 100 Espigueiros em toda a zona, não são apenas estes!!". Defensor acérrimo da sua terra, o senhor, já "homem de quatro filhos, três deles emigrados", retorquia, em tom irritado: "o Parque Nacional devia chamar-se Peneda-Soajo-Gerês". Segundo ele o Soajo foi a primeira freguesia a avalizar a criação do Parque Nacional... então por que razão o nome não consta!!!


De volta à estrada, o caminho levou-nos à Lagoa do Poço Negro.  A 1,5 Km da Vila, e de acesso fácil, este é mais um daqueles miminhos a que o Gerês já nos tem habituado. É uma das lagoas mais profundas (tem cerca de 5 metros profundidade). Talvez por isso, quando olhada de cima, pareça um buraco negro... lugar ideal para criação de estórias, mitos e lendas. Estou certa que haverá algumas!



O caminho do Soajo em direção à Peneda é qualquer coisa. Viramos para Andrão, com paragem obrigatória no Miradouro do Vale da Peneda, para sentir a paisagem. De um lado, toda uma encosta verde rasgada pelo Rio, e do outro a gigantesca Peneda, agreste, beijada pelo Santuário da Nossa Senhora da Peneda.




Descemos até à aldeia de Tibo. O objetivo era conhecer a Lagoa dos Druidas. O nome era sugestivo, mas o trilho estava fora das rotas habituais. Resultado, não encontramos a Lagoa, mas percorremos uma pequena parte do trilho da Mistura das Águas (um dos trilhos pedestres do Gerês), pelo rio da Peneda  em direção ao Encore de Lindoso. Um trilho lindíssimo com as suas rochas escarpadas, de vegetação quase virgem, acompanhado pelo som da água que corre lá ao fundo. Um trilho que conta histórias... a das rotas dos peregrinos para a Senhora da Peneda ou a dos contrabandistas. 

Depois de uma hora a andar, o cansaço fez-nos parar onde a vegetação deu uma brecha. Pequenas quedas de água e pequenas piscinas de água cristalina convidaram a um mergulho refrescante. Um lugar meio esquecido, um lugar meio perdido, onde o descanso teve gosto a vida.

                 






Pusemos pés ao caminho... a chegada ao Santuário da Nossa Senhora da Peneda soube a peregrinação, tal era o cansaço! Alguém escreveu, a Senhora da Peneda "fica na garganta de um monte". Não podia haver expressão melhor para se referir à imagem que temos quando lá chegamos. A sua invulgaridade torna o Santuário "peça única". Começamos a subir as primeiras escadas. Parecem cansadas do tempo... tanto quanto as pernas dos/as peregrinos/as que todos os anos rumam ao Santuário. Ele parece estar ali bem perto de nós... mas não... não fosse ele lugar de peregrinação, um Altar de Fé. Por isso convida-nos a contemplar. Receciona-nos no grande pórtico, onde nos convida a entrar. Conta-nos a vida de Cristo nas suas 20 capelas, estrategicamente dispostas numa alameda arborizada em escadório. Parece que nos está a dizer: a vida é bela, mas ela é exigente e pede força e resistência. E, no fim, sussurra-nos o segredo das virtudes, representadas por estátua no no seu último escadório: Fé, Esperança, Caridade e Glória.
O interior, colorido, pede permanência.





 


Mais um dia, outro trilho.
Outro trilho, novas descobertas...

E ainda está no início!