domingo, 9 de julho de 2017

Lá vêm eles, imponentes! Assim é o exército de soldados de terracota



O mistério em torno do exército de soldados de terracota sempre me fascinou. Aliás, um mistério que se estende a todo o Oriente, e que nós, ocidentais, tanto subestimamos desde tempos idos. Mas isso é outra história!
Os guerreiros de terracota de Xian são quase tão visitados como a muralha da China. Descobertos por acaso em 1974, por dois camponeses, o exército torna-se um dos maiores achados arqueológicos do século XX. Constituem uma forma de arte funerária, enterrada com o imperador Qin - leia-se ‘Chin', o primeiro imperador e unificador do império chinês (259 a.C-210 a.C.), e cuja finalidade era protegê-lo na sua vida após a morte.
Se é lá, em Xian, que estão os verdadeiros cerca de 7000 combatentes do exército imperial, é possível visitar algumas réplicas dos guerreiros, em Portugal. Comprados por Joe Berardo, as peças foram pintadas com as cores originais das armaduras, dos uniformes, e dos rostos dos guerreiros, e disponibilizadas, para visita, no Buddha Éden, Quinta dos Loridos, situada nos arredores do Bombarral. Corri a visitar e fiquei fascinada. Lá estavam eles, imponentes!
Regressei uns anos mais tarde e encontrei o exército todo pintado de azul. Explicaram-nos que as peças estavam a ser restauradas porque os/as visitantes as tinham danificado. Cinco minutos de decepção rapidamente foram ultrapassados por séculos de história. Lá estavam eles, azuis... mas continuavam imponentes! De longe, aquele corpo maciço, revelava uma história com mais de dois mil anos. A história de um imperador megalómano, tirano e impiedoso, mas visionário. Qin unificou a China por força de um exército poderosíssimo, com armas e estratégias militares extremamente avançadas, e de um sistema legal, político e administrativo à frente do seu tempo. Avanços tecnológicos que o ocidente reclama para si muitos séculos depois. E lá continuamos nós (ocidentais) a construir “históricas únicas” sobre o Outro. 
Adentrei a história do exército de soldados de terracota, numa visita que fiz à exposição Terracotta Army - Guerreiros de Xian que, neste momento, está na Cordoaria Nacional, em Lisboa, e que pode ser visitado até dia 10 de setembro de 2017. Antes da visita começar, assistimos a um documentário sobre a história e a descoberta do Exército. Importante para o que se segue, pois torna-nos muito mais atentos/as aos pormenores. Aqui já não era o corpo maciço que se destacava, mas as figuras, uma a uma. Figuras de tamanho real, que variam em peso, indumentária e penteado, de acordo com a patente. Impressionante. Até os fios dos cabelos e as solas dos sapatos são meticulosamente desenhadas. Dezenas de expressões faciais diferentes que recriam a época. Dizem que nenhum guerreiro é igual ao outro. Impossível ficar-lhes indiferente. Os cavalos e as carroças, perfeitamente alinhados. A cor, argilosa, marca a cadência do tempo, feita ainda de muitos silêncios, lendas e crenças.
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Mas... lá estão eles, imponentes! Assim é o exército de soldados de terracota.

2011 - Visita ao Buddha Éden, Bombarral

2016 - Visita ao Buddha Éden, Bombarral

2017 - Exposição Terracotta Army - Guerreiros de Xian, Cordoaria Nacional, em Lisboa

Linhas, curvas e luz: assim é o MAAT

Da série “o que escrever sobre Lisboa que ainda não tenha sido dito?”, surgem as curvas e contracurvas do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia. Inaugurada recentemente, esta obra de arquitetura, que alguns chamam de escultura, é uma visita obrigatória. A sintonia das suas linhas na paisagem ribeirinha faz música. A cerâmica branca das suas paredes, a imitar escamas, faz a luz refletir... ainda mais. Tudo parece ter sido pensado ao pormenor. Dizem que sim. Amanda Levete, a arquiteta, “olhou para o rio durante o desenho do museu” e inspirou-se na “luz, na incrível luz mediterrânica”. Não percebo nada de arquitetura, mas soou-me perfeito. 
A Torre de Belém mantém-se lá majestosa, contando a história de Portugal. O Padrão dos Descobrimentos não nos deixa esquecer o nosso passado conquistador e a nossa abertura ao mundo. E agora temos o MAAT, uma obra do seu tempo, leve, minimalista, sustentável, high-tech. Uma espécie de Ma’at, deusa da justiça e da ordem na religião egípcia, que veioreavivar e moldar a margem do Tejo e religá-la com a cidade”.
Uma visita que se faz por dentro e por fora. Fica a dica!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

“Não há cantinho que não seja um poema”: uma visita a Sintra

“Tudo em Sintra é divino, não há cantinho que não seja um poema”, Eça de Queirós, Os Maias.

 

Todas as vezes que passei por Sintra, os meus olhos procuravam teimosamente aquele edifício, de cores bem fortes, lá no alto ladeirento da serra de Sintra. Lá está, imponente, o Palácio Nacional da Pena... qual pintura rasgando os céus, conquistando reis e inspirando poetas.

Desta vez não houve passagem, mas paragem. A visita fez-se com a calma que este lugar exige. Passo a passo, primeiro pelos jardins, depois pelo empedrado da entrada, tudo sorri para nós. Chegar ao palácio pode demorar meia hora ou uma hora, depende do tempo que queremos dedicar a explorar o Parque da Pena, cheio de percursos, jardins, pontes, grutas, lagos, estufas e estátuas.

A invulgaridade e o exotismo são as palavras de ordem, e estão refletidas em cada fachada, porta, passadiço, esquina ou janela do Palácio da Pena. Uma mistura de estilos que nos deixa perplexos/as. Arcos ogivais, torres medievais, elementos de inspiração árabe. Inevitavelmente, começamos à procura da história... pois só alguém com grande sensibilidade, arrebatado pela beleza do local, e com particular afeição pelas artes conceberia um lugar assim. E a história está lá. Antigo Convento, construído no século XVI por D. Manuel I, o atual Palácio da Pena foi restaurado pelo rei-consorte D. Fernando II, no século XIX. Conhecido pelo temperamento romântico, deixa a sua marcar em todo o edifício.

Fascinou-me particularmente o “Pórtico do Tritão”, projetado pelo próprio D. Fernando, como alegoria à criação do mundo. O arco onde o Tritão descansa, um ser híbrido, meio-homem, meio-peixe, de semblante assustador, é ladeado de duas torres decoradas em relevo por uma espécie de imitação de corais. É impossível ficar-se indiferente a tal pormenor. É impossível. Sentas-te um pouco, num dos terraços, e voltas a olhar para tudo à tua volta, como se fosse a primeira vez. O sol bate na fachada. Nunca o amarelo e o vermelho combinaram tão bem. O sol bate mais um pouco, e os azulejos neo-hispano-árabes, oitocentistas, fazem-nos viajar para outras terras. Afinal estamos no Monte da Lua... onde os sonhos são possíveis.

Do Palácio da Pena rumamos ao Palácio e Parque de Monserrate. Outro deslumbre. Mais intimista, a visita pelo interior do Palácio faz-nos sonhar com tempos idos. De influências medievais e orientais é, juntamente com o Palácio da Pena, um dos exemplos mais importantes da arquitetura romântica em Portugal. Percorremos os corredores, feitos de arcos de um rendilhado finíssimo e de paredes desenhadas a relevo. Em cada canto, sinais de uma decoração eclética, bustos, arabescos, portas em madeira trabalhada e arquiteturas de estilo indo-persa. Na sala da música, sentamo-nos no chão a olhar para o tecto, feito de minudências. Fechando os olhos era possível ouvir a música e imaginar o movimento.
Os jardins circundantes permitem-nos viajar pelos cinco continentes através da botânica, e refletem o exotismo e o espírito romântico do seu último proprietário, Francis Cook, um industrial inglês que foi agraciado pelo Rei D. Luís com o título de Visconde de Monserrate (1859). Os cenários são contrastantes. De caminhos sinuosos passamos para clareiras e relvados. Da vegetação cerrada esbarramos com pequenos jardins mágicos. Do jardim dos fetos, que até podia ser dos afetos, vislumbramos lagos e cascatas. A cada passo um banco. O descanso faz-se com vistas de suster a respiração. Numa dessas vistas, sentadas no relvado de um dos jardins circundantes do Palácio, almoçamos a melhor das refeições. Aquela que é acompanhada de um sentimentos de gratidão.

No final do dia, com as pernas cansadas de tanto andar, mas com a alma a transbordar, o descanso fez-se no centro histórico de Sintra, a comer um travesseiro (doce típico) da Casa Piriquita, e a traçar o roteiro da próximo visita. Sim, o regresso a Sintra é certo, porque ainda há todo um “pequeno mundo” a desvelar. Pois, como descreveu José Saramago, no Memorial do Convento, “[Sintra] daria um bom paraíso no caso de Deus fazer outra tentativa!”

 

Palacio Nacional da Pena



Portal do Tritão



Palácio de Monserrate
Interior do Palácio de Monserrate
Tecto da Sala da Música

Jardins do Parque de Monserrate

Travesseiro, Casa Piriquita, Sintra

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Um virar da esquina pouco provável: a Igreja de São Domingos em Lisboa

O que escrever sobre Lisboa que ainda não tenha sido dito? Provavelmente nada! Visitamos, revisitamos e reinventamos a cidade todas as vezes que olhamos para ela! Ela é sempre diferente aos olhos do/a visitante mais atento. O que a torna fascinante. E é nesse momento, em que olhamos para a cidade com olhos de quem procura, que encontramos “pequenos” pormenores que a cidade esconde, como é o caso da Igreja de São Domingos. Quem a conhece? Provavelmente poucas pessoas, apesar de ficar mesmo ao lado do Rossio e do bar da “Ginginha”.

Um acaso, chamado curiosidade, fez-me entrar, há poucos anos, na Igreja de São Domingos. Entrei na certeza que iria encontrar uma igreja como as outras, sumptuosa na talha dourada e acompanhada por imagens e pinturas valiosas. Mas não. Lembro-me de ter tido um choque visual, seguido de uma grande comoção. A sensação foi a de estar a entrar numa espécie de cenário de guerra, isto porque a igreja conserva, no seu interior, as marcas de um violento incêndio que sofreu em 1959 e que fez com que a igreja estivesse fechada até 1994. A pedra queimada parece chorar silenciosamente... não sei se os pecados dos/as crentes ou os da própria Igreja.

Reza a história que foi na Igreja de São Domingos que começou o massacre dos judeus na cidade, em 1506. Durante três dias, homens, mulheres e crianças foram torturados/as e queimados/as em fogueiras, bem junto à Igreja. Talvez por isso, hoje, bem perto da praça da Igreja, possamos ler, num muro: "Lisboa, Cidade da Tolerância". Talvez por isso, quase como por ironia do destino, este seja um lugar feito de diversidades multiculturais. Um lugar de passagem onde, talvez, alguém repare nas palavras.

O que escrever sobre Lisboa que ainda não tenha sido dito? Acho que temos por aí muita coisa!    








quarta-feira, 21 de junho de 2017

Os 'algarves' da minha vida



Desde pequena, o Algarve sempre foi o destino de férias da família. Lembro-me com saudades das viagens... viagens longas, como era a distância! Primeiro de comboio, depois de carro. Viagens inesquecíveis, onde só a criatividade de se ser criança conseguia sobrepor-se a viagens de carro sem ar condicionado pelas nacionais povoadas de um qualquer Agosto. Todos os anos rumávamos de norte a sul, como milhares de outros/as portugueses/as. Era a garantia certa de umas boas férias de praia. Conheci o Algarve de lés-a-lés, mas era na confusão e na animação de Portimão, Albufeira, Vila Moura ou Armação de Pêra que gostávamos de estar. Os dias e as noites fundiam-se com a água salgada do mar, o calor do sol, as festas, os sunsets, os drinks e os ice-creams. Sim, já na altura precisávamos de falar inglês para nos safarmos ☺ Depois crescemos... (pensamos nós!!) e começamos a querer passar férias com os nossos amigos e amigas. Nesse momento deixei de ir para o Algarve com os meus pais... não porque não gostasse, mas porque crescemos (pensamos nós!!). Juntou-se a isto a sensação de que o Algarve já não era para os “seus” mas para os “outros”. E rapidamente tornei-me “outra” noutras terras. 
Depois crescemos mais um pouco, e sentimos a necessidade de fazer regressos. E passados alguns anos volto ao Algarve e reapaixono-me. Já não pelo movimento e pela confusão, mas pela paz e pela tranquilidade de lugares como a Fuseta (vila inserida no coração do Parque Natural da Ria Formosa) e as suas praias, planas, de água quente e areia branca e limpa - como as praias da Ilha da Fuseta, da Barra Nova ou da Barra Velha. A travessia faz-se de barco (aqua-taxi), a partir do cais, perto do porto de pesca, feito de gentes simples. Dez minutos e chegamos a uma espécie de paraíso. 
A brisa bate-nos no rosto, a areia é tão branca que o sol faz reflexo. O mar, calmo e quente, chama por nós. Não há como lhe negar uma estadia prolongada. Fechas os olhos e sentes que podes viajar para onde quiseres... mas quando os abres, percebes que não queres ir para lado algum, apenas aproveitar aquela lugar, de uma boniteza sem fim. Na realidade, muitas destas praias, pelo seu acesso mais difícil, eram um segredo bem guardado. Daqueles para onde o “Algarve” ia descansar do turismo! Hoje mais massificadas e conhecidas, não deixam, contudo, de ser das mais protegidas do litoral algarvio. Aliás deviam ter uma placa a dizer: “De uso moderado” ou “Frágil”.  


O peixe é delicioso, e o marisco de chorar por mais. 
A experiência de ir apanhar amêijoa, berbigão e ostras foi fantástica. Aprender um pouco da arte... que trabalho duro! Mas a diversão foi garantida e o jantar... divinal. No fim, um gelado na melhor gelataria de Olhão (Gelados Gelvi), daqueles que nos faz regressar à infância. E tudo (se) encaixou, perfeitamente! 
Há regressos que têm sabor a vida.