quinta-feira, 11 de maio de 2017

Ilha de São Miguel, Açores: uma promessa de regresso

Lagoa do Fogo
Prometo voltar!
Começo esta crónica pelo fim.
Dás a volta a ilha, vais aos pontos turísticos e regressas com a sensação de que tanto ficou por ver. Três grandes motivos convergiram para esta sensação. Um foi o tempo de estadia. Se queres fazer uma escapadinha de dois ou três dias não vás para S. Miguel. A ilha é tão generosa em beleza e segredos que te vai pedir que lhe dediques tempo. Outro motivo, que condiciona o primeiro, é a volubilidade meteorológica, não fosse a ilha de São Miguel conhecida por conseguir ter as quatro estações no mesmo dia. O melhor dos planos é não fazer planos, e deixar que o lugar nos leve! O terceiro motivo, mais emocional, foi a pouca permanência nos lugares, aquele tempo que precisas para te permitires ouvir o que a terra, o mar e o vento te confidenciam.
Por isso, prometo voltar! Para rever o que vi, ver o que não vi, recriar o que vivi e prolongar-me, com tempo, no que a falta de tempo não me permitiu sentir.
O que dizer sobre os Açores que não seja repetitivo? Acho que gastei parte dos adjetivos quando escrevi sobre a Ilha Terceira e a cidade de Angra do Heroísmo.
Nas suas 50 shadows of green, a ilha de São Miguel é atrevida e sensual. Em cada curva faz-nos suster a respiração e em cada recanto suspirar. A natureza  no expoente da perfeição. É o que sentimos quando percorremos as Lagoas (Empadadas, das Sete Cidades, das Furnas, do Fogo). É o que experienciamos quando furamos a vegetação mais densa ou passeamos nos jardins botânicos, como o do Parque de Terra Nostra ou a Mata Jardim José do Canto nas Furnas, que são verdadeiras criações de amor. É o que se revela quando passamos pelos Miradouros, todos eles, cada um à sua maneira, com vistas únicas e seus parques de merendas impecavelmente arquitetados. Não posso deixar de destacar o Miradouro da Ponta do Sossego. Aquele que ficou bem pertinho da alma. De freguesia em freguesia, o passeio faz-se por uma espécie de pequenos presépios, culturalmente emoldurados. Os espaços públicos parecem jardins privados e as bermas da estrada parecem canteiros tratados. Até os rails na estrada estão revestidos a madeira para não destoarem da paisagem.
Pela origem vulcânica, que se expressa nas formações geológicas da ilha, São Miguel mostra a sua impetuosidade e expele a sua fogosidade. Diria até que ferve em pouca água, literalmente :-). Das fumarolas das Furnas às águas termais (do Parque Terra Nostra, da Poça da Dona Beija ou da Caldeira Velha), passando pelas caldeiras aquecidas por magma vulcânico que formam jacuzzis e piscinas naturais, como na Ponta da Ferraria, a ilha mostra ter “pêlo na venta”. A cor castanha das águas termais, por serem ricas em ferro, o vapor e cheiro a enxofre que dominam o ambiente de algumas localidade e a água a borbulhar da terra pintam uma paisagem invulgar. Não há como não provar a água que brota das fontes, naturalmente gaseificada, horrível de sabor. Reza a história que cura a ressaca, pudera!! :-)
Na pronúncia do seu povo (sotaque micaelense), a ilha de São Miguel conta a história das influências portuguesas (do sul do país) e francesas no povoamento da ilha. Um verdadeiro património. Falar com as pessoas locais é imperativo. Nem sempre é fácil compreender, mas a experiência é singular. Para as outras ilhas, eles são os “japoneses”, não há quem os entende J É o “u” que vira “ü”. Nos ditongos oi, ou e ei, omite-se a última vogal. O “e” que passa a ser “a”. O “você” que é substituído pelo “senhor/a”. Pelas suas gentes conhecemos o menos turístico, ouvimos as histórias de outros tempos e percebemos que o que são cenários idílicos para o/a turista são também preocupações, com histórias de perda, para a sua população. A Erupção dos Capelinhos, no Faial, no final da década de 50. O terramoto nas ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa, em 1980, as crises sísmicas, os furacões, as inundações e os deslizamentos de terras. O arquipélago dos Açores tem uma grande atividade sísmica de natureza tectónica a que se junta ter ilhas vulcanicamente ativas, como é o caso de São Miguel, que tem três vulcões ativos - Sete Cidades, Furnas e Fogo.
Pela gastronomia, a ilha leva o mar e o prado para o prato. O peixe e o marisco são abundantes. Deliciei-me com uma barriga de atum como nunca tinha comido. Dizem que o cozido das furnas é maravilhoso. Cozinhado debaixo do solo, nas caldeiras das furnas, só lhe vi o aspeto, mas fiquei com água na boca. O bolo lêvedo é um cartão de visita imperdível. Fica bem com tudo. Mel, queijo, doce de maracujá, doce de ananás... venha a imaginação! Para quem for guloso, as trufas e as queijadas... a cereja em cima do bolo! Para beber... aí é melhor sentar um pouco. Do bom vinho regional, como o Frei Gigante, aos licores A Mulher de Capote, passando pela Kima e pelo chá Gorreana, encontramos o sabor dos Açores numa garrafa ou na selagem de pacotes de chá coloridos.
Através das Portas da Cidade, em Ponta Delgada, a ilha de São Miguel convida-nos a entrar e a visitar. A partir daqui, constroem-se séculos de história, que se dispersa pela ilha, que se entalha nas paredes dos monumentos e se reescreve sempre que alguém anda pelas suas ruas, ruelas e trilhos. 
Prometo voltar! Porque me apaixonei pelo lugar que junta terra, mar, lagos, montanhas, crateras, vulcões, vegetação... e muitas estórias!


Lagoa Empadadas



Lagoa Azul, Sete Cidades

Lagoa Verde, Sete Cidades

Lagoa das Furmas

Mata Jardim José do Canto, Furmas


Caldeiras da Lagoa das Furnas

Caldeiras da Lagoa das Furmas, onde se faz o Cozido das Furmas

Ponta da Ferraria, Ginetes

Parque Terra Nostra. Piscina de águas termais
Parque Terra Nostra. Jardim Botânico

Parque Terra Nostra. Jardim Botânico

Miradouro da Ponta do Sossego

Miradouro da Ponta do Sossego

Parque de Merendas da Ponta do Sossego

Fábrica do chá Gorreana. Campos de chá

Chá Gorreana

Portas da Cidade, Ponta Delgada



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